Não corra!

Texto de autoria da atleta maratonista Danielle Cosme.

Se eu pudesse dar um único conselho a você, seria: não corra. Correr é um ato de loucura. Se você começar, vai perceber que: seu corpo vai doer, suas pernas vão cansar, seus pulmões irão sentir a gana por oxigênio, seus pés serão maltratados e as unhas irão cair. Não corra. Se você começar a correr, vai perder as baladas de sábado com os amigos. Vai sair de casa no frio, sua pele vai arrepiar e, ainda assim, não terá vontade de voltar para a cama. Não corra.

Não seja como esses doidos que percorrem ruas, calçadas, parques, e trilhas, respirando ofegantes, com viseiras coloridas, fones nos ouvidos e relógios controladores de tempo e de distância. Não seja mais uma pessoa que sai por aí correndo sem destino, enquanto passa por carros e ônibus lotados. Quem, em sã consciência, trocaria o ar-condicionado do carro por uma corrida ao ar livre, com vento no rosto? Não corra. Correr é um vício perigoso. Você vai falar uma linguagem estranha, seu vocabulário será inundado de palavras como paces, longões, flartec, altimetria, regenerativo, canelite e endorfina. Seus amigos e familiares não entenderão quando você falar que “quebrou naquela prova”, e ficarão apavorados quando você disser que “deu 12 tiros no treino de ontem”.

Quando você menos perceber, seu roupeiro terá mais shorts, calções e camisetas do que roupas de “pessoas comuns”. As paredes da sua casa não terão mais quadros com lindas paisagens; estes darão lugar a medalhas com fitas coloridas e pedaços de papel com números aleatórios que mais parecerão fórmulas de física quântica. Corredores são pessoas estranhas, que comem sem medo, bebem sem culpa, que correm dezenas de provas durante um ano, não ganham nenhuma, mas festejam cada uma delas como uma conquista olímpica. Corredores são loucos, confie em mim. Não corra.

Correr vai te trazer a sensação de você é capaz de ir sempre mais além. Correr vai fazer você conhecer pessoas loucas que começaram a correr e se tornaram viciados, daqueles que falam com desconhecidos no meio de uma corrida. E, veja só: eles ajudam estranhos, incentivam pessoas que nunca virão antes a continuar correndo.

Estes viciados não deixam os outros largarem do vício. Não corra. Corredores colecionam medalhas, possuem um corpo magro, uma mente saudável, fazem amigos de infância a cada prova que disputam. Corredores são pessoas felizes, e isso (aaah…), isso é um grande perigo para a sociedade. Então, acredite em mim: não corra. Não corra o risco de se tornar um viciado incurável ou uma pessoa que possui a felicidade genuína. Não corra o risco de se tornar alguém melhor a cada dia.

Blog da autora: https://corredanielle.wordpress.com/2015/12/09/nao-corra/

Extraído do site http://www.correiodeuberlandia.com.br/colunas/treinosemetas/nao-corra/